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A ORIGEM DA CAPEIA
As gentes da região raiana, têm uma estima e um carinho excepcional em relação à capeia, não só porque é uma variante única da tourada tradicional (que só se pratica nesta zona do país), como também porque enobrece e exalta o orgulho de ser arraiano. Como me confessou um senhor natural dos Fóios. A capeia está para os Fóios e para a raia em geral, como as festas de S. João e de S. Pedro para Lisboa". A capeia representa algo de muito próprio e característico para os Fóios, e realizar um estudo monográfico e etnográfico sobre os Fóios - e a raia - , sem referir a capeia, seria atentar contra a mentalidade popular e a sua integridade intrínseca. A existência e a prática da capeia na raia, remonta a mais de um século de história, feita de empenho e de entusiasmo por parte do povo fojeiro (e não só). O motivo do aparecimento da capeia, deve-se à influência cultural que Espanha exercia sobre a raia. As primeiras capeias genuinamente arraianas, iniciaram-se pois, no século passado, e eram realizadas com vacas cedidas gratuitamente por Espanha. Porém, "com o passar do tempo, as despesas com a organização da capeia, aumentaram bastante, chegando a atingir algumas centenas de contos”. Pouco a pouco, esta tradição de organizar capeias em momentos festivos, foi-se enraizando através de aldeia em aldeia, tendo sido os Fóios uma das primeiras povoações a tomar iniciativa, quanto á periodicidade da realização da capeia.
O FORCÃO E O ENCERRO
Sem o forcão, não haveria capeia tipicamente arraiana, visto ser este o elemento fundamental, o que dá verdadeira originalidade às touradas da raia do Sabugal. Sinteticamente, poder-se-á dizer que o forcão consiste num corpo triangular feito de madeira de carvalho e construído uns meses antes do início da capeia. O forcão é ainda constituído pela galha (onde os touros marram), e pelo rabiche que representa o leme do forcão, sendo dirigido por dois homens de estatura mais elevada. A capeia é efectuada no largo principal da povoação (vulgo praça), cuja periferia é tapada e cercada em círculos, com tractores agrícolas e estruturas de madeira, por forma a proteger as pessoas das investidas dos touros. Em cima dos tractores e dos carros de bois carregados de lenha, instalam-se tão comodamente quanto possível, os espectadores. A origem do nome forcão, liga-se à palavra latina furca, e pertence à mesma família de forquilha, e do francês “fourchete”, que significa garfo. Aliás, o forcão, assemelha-se muito a uma gigantesca forquilha. A capeia dos Fóios é realizada sempre na 3ª terça-feira do mês de Agosto, inicia-se por volta das 17 horas, após o calor; o encerro é feito de manhã, e representa a entrada dos touros na praça, onde são posteriormente metidos num curral anexo, até à hora do início da corrida. Em cada capeia, são seleccionados seis ou sete touros, dos quais um, é “experimentado” logo a seguir ao encerro, e designa-se por “boi da prova”, que irá dar indicações acerca do poderio da manada, e do eventual desenvolvimento da capeia a desenrolar-se à tarde. O encerro é por conseguinte, um dos momentos mais ansiados pelas pessoas, e que proporciona maior emoção. A capeia dos Fóios tem tido ao longo dos tempos, fama de ser uma das mais ousadas, emocionantes e inebriantes capeias de toda a zona da raia; o perigo, o nervosismo e a coragem, são coisas que não faltam no desenrolar da capeia, e apesar da não existência dos “touros de morte” nas arenas raianas, está sempre em aberto a possibilidade de alguém ser ferido (ou mesmo morto) com gravidade. Alguns touros são tão possantes e bravos, que chegam a levantar o forcão em peso, e a sacudi-lo como se de um brinquedo se tratasse; é nestas alturas que se prova a valentia destemida da malta jovem, rivalizando com a população das aldeias vizinhas, tentando desta forma, alcançar uma maior superioridade em relação ás outras povoações da raia.
Os mordomos da capeia (que são nomeados anualmente pelos anteriores organizadores) são geralmente dois, escolhidos entre os rapazes solteiros, de preferência antes de cumprirem o serviço militar. É a eles que se destina o primeiro touro da capeia, ficando cada um deles a sua galha do forcão, com o apoio dos mais velhos e experientes. Infelizmente, o número daqueles que sabem pegar ao forcão, é cada vez menor, pois os velhos vão morrendo e os novos, ou não querem ou não os deixam arriscar-se. Em contrapartida, a violência sobre os animais é hoje menor do que antigamente, pois chegavam a matar-se bois na praça, batendo-lhes impiedosamente com estadulhos. Por tudo isto, se compreende a importância e o valor dado à capeia pelos fojeiros, altura única em que se reúnem os familiares e amigos (alguns emigrantes), num ambiente festivamente eufórico e de grande alegria popular. O fenómeno da capeia é essencial para se entender em toda a magnitude, a tradição e a cultura popular da aldeia, bem como os seus costumes e o modo de vivência lúdica, tão fortemente enraizados no espírito raiano. |